oblívio

s.m. Ação ou efeito de esquecer; perda de memória; esquecimento.
Figurado. Condição do que ou de quem se encontra em repouso; descanso ou adormecimento.
(Etm. do latim: obliviu)

antonimo de imaginário

1. real.

2. sólido, palpável, concreto.

3. definitivo, régio, suntuoso, positivo, atual, existente, eficaz, eficiente, nobre,majestoso, magnificente, certo, autêntico, fidedigno, genuíno, permanente,verdadeiro, verídico, augusto, efetivo, numerário.

kandinsky

wassily kandinsky (quatro de dezembro 1866, 120 anos antes de mim)

A criação de Kandinsky de trabalhos puramente abstratos seguiu um longo período de intenso desenvolvimento e amadurecimento do pensamento teórico baseado nas suas experiências pessoais artísticas. Chamou a esta devoção como beleza interior, fervor de espírito e uma necessidade funda de desejo espiritual, que foi o aspecto principal da sua arte.

O fascínio pelo simbolismo e psicologia da cor continuaram durante o seu crescimento, apesar de parecer nunca ter estudado arte. (…) ele relacionou o ato de pintar para criar música na maneira que mais tarde viesse a ser mais reconhecido e escreveu “As cores são a chave, os olhos o machado, a alma é o piano com as cordas”. 

A influência da música foi bastante importante no nascimento da arte abstrata, como sendo abstrata por natureza, este não tenta representar o mundo exterior mas antes para expressar, numa maneira imediata, os sentimentos interiores da alma humana. Kandinsky às vezes usava termos musicais para designar o seu trabalho; ele chamou a muitas das suas pinturas espontâneas “Improvisações”, e “Composições” a outras muito mais elaboradas e trabalhadas em comprimento, um termo que ressoou nele como um orador.

Ao mesmo tempo que escrevia “Do espiritual na Arte”, Kandinsky escreveu o Almanaque do Cavaleiro Azul, que serviram tanto como defesa e promoção da arte abstracta, assim como uma prova de que todas as formas de arte eram igualmente capazes de alcançar o nível da espiritualidade. Ele acreditava que a cor podia ser usada numa pintura como uma coisa autónoma e distanciada de uma discrição visual de um objecto ou de uma qualquer forma.

Pretendeu que as suas formas fossem subtilmente harmonizadas e colocadas, para ressoar com a própria alma do observador.

fonte- wikipedia

Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam;
contudo vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles.

Mateus 6:28-29

olha, descobre este segredo: uma coisa são duas - ela e sua imagem. 

c.d.a.

amor e desejo

O que é o amor? Essa é uma das perguntas mais antigas da Filosofia. No Banquete, Sócrates discute diversas visões sobre esse assunto. Os companheiros de Sócrates começam a conversa fazendo elogios ao amor. Afirmam que ele é algo divino, belo e bom. Mas Sócrates, então, introduz a visão de uma mulher, Diotima, que redefine os rumos do diálogo.

Para Diotima, o amor não é belo nem bom. Ele é antes o desejo dessas coisas. Ora, só se pode desejar o que não se tem. Então, o amor é uma carência e a busca por saciá-la. Mas qual é a “lógica” do desejo?

O desejo é uma reverência ao desejado. Ser desejado implica em ser valorizado. Pelo menos para alguém você tem valor. Por isso, ser desejado muitas vezes torna-se um ideal, a solução para todos os problemas de insegurança e auto-estima. Se o outro me valoriza, porque me deseja, então eu tenho valor.

Desejamos o desejo do outro. Desejamos ser objetos de desejo. Isso tem a ver não só com a vida amorosa propriamente dita ou com sexo, mas com muitas outras dimensões da nossa vida. Ser desejado no trabalho, nas amizades, na vida social etc. é ganhar um lugar ao sol, é a medida de nossas qualidades.

Mas aquele que deseja, deseja consumir. O desejo busca sua própria extinção, pela sua satisfação, que é o ato do consumo. Desejar uma barra de chocolate é “tramar sua morte”, é querer superar aquela situação de carência usufruindo o objeto. Portanto, cuidado com quem te deseja!

O desejo precisa dominar seu objeto, preciso limitá-lo àquilo que o satisfaz. Por isso, se o desejo é o início do amor, pode ser também o seu fim. O amor, para Diotima, é essa busca do que se ama. Mas no desejo, essa busca tem que ter um fim. Amar, então, é recriar o desejo, deixando o desejado ainda livre.

Camões escreveu: “tão contrário a si é o mesmo amor”. O amor autêntico é contraditório, no sentido de que viola a “lógica” daquilo de onde ele se origina, o desejo. O desejo quer consumir seu objeto. Mas no amor, descobre-se no objeto um sujeito, que sempre de novo é mais: não se esgota, e não queremos esgotá-lo.

Um dos mais importantes filósofos do ocidente escreveu: “O amado não é oposto a nós, é uno com nosso ser; às vezes vemos somente a nós mesmos nele, e logo, ao contrário, ele é algo diferente: um milagre que não chegamos a compreender” (HEGEL, 1797).

No cotidiano, precisamos ser fiéis ao princípio lógico da não-contradição. Minha casa é amarela ou não é amarela. Não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Mas o amor é a vivência de uma contradição. Quem ama se identifica com a pessoa amada, mas ao mesmo tempo não se identifica. Está com ela porque ela realiza seus desejos e ao mesmo tempo não realiza, há algo ainda por fazer. Nos identificamos com o outro naquilo que esperamos dele, naquilo que ele nos satisfaz. Mas essa identificação é sempre provisória. E é nessa provisoriedade que se instala o amor.

Amar requer a maturidade de não tomar essa frustração do desejo como frustração. É estar com o outro ainda naquilo que ele mostra não ser o que nosso desejo procura. É fazer planos e, contra o que a razão prefere, refazê-los.

Mas então o amor requer tempo e coragem. Não se trata de encontrar a pessoa certa, a pessoa desejada. Não se trata de possuir os atributos de alguém desejável. É preciso ultrapassar o nível do desejo, e isso implica em abrir-se à insegurança do questionamento sobre nosso próprio ser. Fomos treinados para ter objetivos e para buscar sua realização. Então, não para amar.

onde não puderes amar, não te demores.

f kahlo

primeiro dia calmo

holismo

O todo é maior do que a simples soma das suas partes

paisagens imaginárias

de guignard

thiago rocha pitta

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sempre gostei do pouco que conhecia sobre o trabalho do thiago rocha pitta. o trabalho “herança” me encanta! daí descobri outros belos trabalhos em seu site, mas também os títulos são tão lindos. nesse caso, respectivamente: projeto para pintura com temporal, herança, abismo sobre abismo, esboço para uma carta de amor. 

e ele tem um trabalho cujo título é

saudades da pangeia.

uma nova suavidade

Penélopes eternamente condenadas à vontade de ficar e Ulisses eternamente condenados à vontade de partir.

Ficamos com a esperança de que eles inventarão outra espécie de amor. Um além dos Ulisses e das Penélopes: um amor não tão demasiadamente humano. Montagens desintoxicadas do vício de redução do desejo de mundo a um objeto-pessoa ou uma pessoa-objeto.

Mas também um além das máquinas celibatárias, esse avesso do homem: um amor não tão demasiadamente desumano. Montagens desintoxicadas do vício de proliferação de mundos, objetos do desejo — proliferação tão desenfreada que não há mais nem mundo, nem desejo.

Ficamos imaginando um além do homem (humano e/ou desumano), onde campos de intimidade se instaurem. Territórios-pousada. Uma certa inocência.

Um além do espelho onde nossa viagem não seja nem mais aquela (agarrada) de um Ulisses, nem aquela outra (desgarrada) das máquinas celibatárias. Viagem solitária: uma solidão povoada pelos encontros com o irredutivelmente outro.

Quase replicantes que somos, já sabemos também de que é feito esse empenho: ele é feito de amor. Mas, por enquanto, pouco ou nada sabemos acerca dessa espécie de amor.

http://territoriosdefilosofia.wordpress.com/2014/06/07/amor-o-impossivel-e-uma-nova-suavidade-suely-rolnik/

propósito da dor?

E universalmente compreendida como um sinal de doença, muitas vezes descrita em termos de um processo penetrante ou destrutivo ao tecido e/ou uma reação orgânica ou emocional.

paz a esta casa, de kleber mendonça, 1994, 1 minuto, stills.

a solidão amiga, rubem alves

 

A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão… O que mais você deseja é não estar em solidão…

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música… Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa… Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão… A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis“. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?“ Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.“ Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga… Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!“

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que “o inferno é o outro.“ Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia… Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:

“Ó solidão! Solidão, meu lar!… Tua voz – ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.

Ali as palavras e os tempos
poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.“

E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa – garrafa, prato, facão – era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (…) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (…) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia.“

Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita.“ É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

“…Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos… Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília…“

Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão…

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos… Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.

(Correio Popular, 30/06/2002)